A ceia é boa e, raríssimas vezes, surpreende com um cardápio que não havia sido planejado ainda. O prato é perfeito, dá até pra desconfiar do sabor, porque a cara está boa de mais. O medo de dar a primeira garfada é eminente, mas não tem mais jeito, agora é só lamentar. E então, eis que o inesperado acontece, os sinos badalam, e shazam: o sabor é incomparável, nosso paladar jamis foi contemplado com impreessão parecida e, tendo a possibilidade de escolher - rápido - entre comer apenas as garfadas que nos foram servidas ao prato ou devorar o manjar e lamber a louça, ficamos com a segunda opção, já que todos estão entretidos com suas aparências impecáveis e suas vidas perfeitas e sequer notariam o que se passa conosco, inebriados que estamos com a descoberta.
É provável que este prato já tenha passado pelas mãos de muitos, sem paladar aguçado para distingui-lo de outro qualquer. Creio que até por mim já passou iguaria de proporcional sabor, mas que não tive sensibilidade suficiente para notar seu real gosto. Contudo, com esta especificidade, garanto que nunca vi. Este era o meu prato.
Então, depois de nos lambuzarmos com o jantar, mal podemos acreditar que já acabou. Então, é hora de falar com o cheff e findar a curiosidade: o quê foi servido? Mas, eis que o inesperado acontece novamente, e não há cheff algum, apenas um lugar vazio no cargo mais respeitado da cozinha.
A sensação de fome foi-se embora, levando consigo a real ilusão vivida. Ninguém aponta em nossa direção, ninguém percebeu nada do que se passou e tudo segue normalmente. Menos pra nós, que vivemos e provamos do que foi servido.
A volta pra casa é automática,e nos recolhemos para dentro de nós mesmos, onde ninguém entenderá o que aconteceu e por isso é desnecessário compartilhar com alguém que não resida no nosso interior. E quem reside nesse lugar, na outra ponta da mesa? Para quem viveu essa sensação alguma vez, há um lugar vago e uma travessa vazia, esperando pelo prato e pelo cheff.
E depois de esperarmos à toa que alguém sente nesse lugar, levantamos e nos dirigimos ao toucador, que é o único lugar em que nos vemos realmente despidos e onde revisitamos nossas secretas fantasias e sonhos de outrora e de hoje, os quais são indispensáveis para acordarmos amanhã, colocarmos nossas vestimentas, e escondermos um pouco de nós para aquele que ainda não chegou.
E quanto a receita do que foi feito naquele inesquecível banquete, haverá repetição? Haverá cheff? Quanto a esta indagação, há como respondê-la porque não há uma resposta condizente a todos os paladares.

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